Pesquisa mostra que 51% das mulheres sofre preconceito no mercado de trabalho

Mães lidam com uma série de desvantagens impostas pelo próprio mercado de trabalho

A vendedora Aline Santana, 36, precisou deixar o mercado de trabalho assim que o  isolamento social  começou. A empresa em que atuava não trabalharia com  home office e ela teve receio de ser infectada pelo novo coronavírus. Neste período, ela passava pelo  puerpério depois de dar à luz a gêmeas.

Quando suas  filhas completaram 8 meses, a vendedora retomou a busca por novas oportunidades e conseguiu a entrevista perfeita. “Eu preenchia todos os requisitos, tinha a graduação que pediam e experiência com o produto ofertado”, explica.

A conversa foi animadora e a entrevistadora demonstrou interesse, até que de repente fechou a cara. “Ela leu a ficha, olhou para mim e perguntou sobre as minhas filhas. A empolgação dela caiu na hora”, diz.

Depois da entrevista mal sucedida, Santana conseguiu um emprego e, no período em que concedeu entrevista ao iG Delas, estava providenciando as documentações para começar. “Assim como excelentes profissionais que não têm filhos, aquela mulher precisa de trabalho, tem seus custos. Ser mãe não faz dela melhor ou pior profissional”, afirma.

A pedagoga Kátia Pereira de Souza, 49, está há mais de um ano desempregada e também enfrentou uma reação muito similar em uma entrevista de emprego, mas por um motivo diferente: sua idade. Em uma das entrevistas a qual foi chamada, passou na dinâmica em grupo e nas provas de conhecimentos gerais, mas afirma ter sido humilhada pelo entrevistador na entrevista final.

“Ele disse que minha idade incomodava porque como a  escola era direcionada para berçário e educação infantil. Disse que precisava de pessoas ativas para brincar, dançar, sentar no chão com as crianças e que não teriam tempo para ensinar isso”, diz.

O sentimento de Souza ao sair do local foi de indignação. “Tenho capacidade de trabalhar, tenho conhecimento, experiência e, principalmente, amor pelo que faço. Por que sequer me deram esperança, se não me contratariam?”, questiona.

Santana e Souza comentaram suas experiências desagradáveis em entrevistas de emprego em uma postagem na rede social LinkedIn que falava sobre mulheres que, por serem  mães ou com mais idade, são desconsideradas em oportunidades de emprego. As queixas delas correspondem a 51% das mulheres que afirmam ter enfrentado preconceito no mercado de trabalho , segundo pesquisa realizada pelo site de empregos Infojob.

Não só no Brasil, mas em todo o mundo as mulheres que são  mães lidam com uma série de desvantagens impostas pelo próprio mercado de trabalho, como pouca flexibilização de tempo, desvantagens de remuneração e desqualificação de suas capacidades em detrimento de sua condição como mãe. O nome desse fenômeno é Motherhood Penalty (em tradução livre, penalidade pela maternidade).

De acordo com dados apurados pela empresa B2Mamy, que capacita e conecta mães ao mercado de tecnologia e inovação, uma nova mãe surge a cada 20 segundos no Brasil, o que resulta atualmente em 79 milhões de mães no País. A partir do momento em que se torna mãe, 48% decidem sair do mercado de trabalho e só voltam depois de 2 anos e têm suas carreiras profissionais atrasadas em ao menos 6 anos.

Dani Junco, CEO da B2Mamy, afirma que, atualmente, é preciso levar em conta os impactos causados pela pandemia, que fez com que 7 milhões de mulheres ficassem desempregadas durante o período de isolamento social, um número considerado 25% a 30% maior em relação aos homens. De acordo com pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o nível de participação das mulheres no mercado de trabalho se igualou ao de 1990 .

“O motivo maior foi principalmente porque as mães teriam de ficar em casa cuidando dos filhos, já que as escolas estavam fechadas”, explica. De acordo com a pesquisa do Infojobs, a  dupla jornada é rotina de quase 86% das mulheres.

Rafaella Bassetti, CEO e fundadora da Wishe, hub de investimentos de startups lideradas por mulheres, afirma que as empresas sentem que a falta de tempo das mães é um impeditivo para melhorar seu desempenho. Foi o que Santana sentiu durante sua entrevista de emprego.

“Duvido que uma mulher que é mãe nunca ouviu a frase ‘com quem você vai deixar seus filhos para vir trabalhar?’. E não é dita em tom de preocupação com as crianças, mas com a empresa”, afirma a vendedora.

Segundo Bassetti, essa é uma pergunta clássica. “A questão da disponibilidade, tempo e dedicação é muito relevante para as empresas. É uma coisa que infelizmente existe”, diz. Esse é um pensamento herdado da maneira como o mercado organiza suas exigências atualmente, que pede dedicação total por parte dos funcionários.

“Isso pode funcionar para algumas pessoas, mas para outras não. Essa visão de dedicação da economia hard acaba penalizando essas mulheres, colocando-as no final da fila”, diz.

“É um grande desafio ser mãe e mulher nesse país, onde empresas não entendem que são dois papéis importantes na sociedade, não só para as nossas casas, mas também dentro de um cenário desafiador do polo econômico mundial”, afirma Junco.